O MERCADO MUNDIAL DO CACAU: o que esperar para 2013

Segundo o dicionário Aurélio Eficiência é a Qualidade ou Capacidade (de alguém, um dispositivo, um método etc.) de ter um bom rendimento em tarefas ou trabalhos com um mínimo de dispêndio (de tempo, recursos, energia etc.).

Por que começar com a definição de uma palavra?  Porque precisamos retratar com fidelidade o significado do que seja Eficiência.  Esse conceito é indispensável na vida dos produtores, especialmente àqueles que trabalham com o cacau.

Então, sabendo o conceito de Eficiência, como consegui-la sendo um produtor de cacau? Ser capaz de produzir com qualidade, com o melhor rendimento e ao menor custo; traduzindo: cacau tipo Superior, numa produtividade maior que 1000 quilos por hectare, gastando o menos possível.  Se estivéssemos falando de um produto com estrutura de comercialização “bem comportada” (pelo menos a lei de oferta e demanda funcionando normalmente), sim, isso seria suficiente.  Contudo, o cacau é considerado uma das commodities agrícolas de maior dificuldade nas negociações de mercado, onde a especulação predomina.  Sem falar na assimetria de informações advindas dos principais produtores.  A tabela abaixo pode servir para ilustrar esse efeito.

País VBP

(US$ 106)

Produção (t) US$/t ha colhida kg/ha
Brasil 441 248.524 1,774 680.484 365
R. Camarões 440 272.000 1,618 697.000 390
C. Marfim 753 1.350.320 558 2.495.110 541
Gana 698 700.000 997 1.650.000 424
Indonésia 710 712.200 997 1.677.300 425
Malásia 20 15.975 1,252 21.722 735
Nigéria 671 400.000 1,678 1.270.000 315

VBP = valores (US$) constantes nos anos de 2004-2006.

Fonte: FAO (www.fao.org), 2011.

Como pode ser verificado, segundo os dados da FAO (2011), a Costa do Marfim tem a maior produção (1,35 milhão de toneladas), a maior área colhida (2,5 milhões de hectare), a segunda maior produtividade (541 kg/ha) e o pior preço médio pago à produção (US$ 558/t).  Para esse mesmo indicador o Brasil (US$ 1,774/t), a Nigéria (US$ 1,678/t) e a República dos Camarões (US$ 1,618/t), lideram os maiores preços médios.

Como pode ser verificado, a falta de um padrão dificulta muito o entendimento de análise e previsão dessa commodity.  Mas, o que podemos esperar para 2013?  Não podemos nos esquecer que o ano cacau já começou em outubro de 2012 e se encerrará em setembro de 2013, tendo decorridos, portanto, cinco meses de safra internacional.

A Organização Internacional do Cacau (ICCO na sua sigla em inglês) informa que a produção (oferta) continuará  caindo, tal como aconteceu na última safra (queda de 5,5%), numa previsão de diminuição em relação à safra anterior na ordem de 1,5% (a previsão é de 4,003 milhões de toneladas). No que se refere às moagens (demanda), espera-se que continue a crescer (em 2011/12 foi de 0,3%), podendo atingir o percentual de 1,5% (estima-se uma moagem de 4,008 milhões de toneladas).  Esse crescimento da demanda será impulsionado por duas condições: i) um crescente gosto asiático (aumento do consumo) para produtos de chocolate, tais como bebidas e sorvetes com base no cacau em pó; e ii) uma reversão, em fase de execução, para baixo, dos estoques de manteiga de cacau. “Estoques de manteiga de cacau, que foram esgotados nos últimos dois anos, precisam ser repostos, enquanto a busca para o cacau em pó na Ásia continua a crescer”, disse a ICCO.

Segundo a Agrimoney (http://www.agrimoney.com/9/cocoa), a produção vai cair, pela segunda vez consecutiva, desta vez por cerca de 70 mil toneladas, graças a um fraco resultado da África, a principal região produtora.  As colheitas nos principais países produtores, Costa do Marfim e Gana, tiveram um início fraco, após um período de seca no terceiro trimestre de 2012, embora as entregas para os portos tenham se recuperado nas últimas semanas.

Acrescenta a Agrimoney que as saídas na Costa do Marfim vão cair por 16 mil toneladas, e a colheita de Gana caindo por cerca de 60 mil toneladas – embora isso possa ser um reflexo das medidas para apertar o contrabando pelos agricultores que procuram explorar os preços mais elevados (Gana paga aos agricultores, cerca de US$ 1,800 por tonelada, enquanto o país vizinho paga US$ 1,430 a tonelada). “Graças a medidas mais rígidas tomadas pelos dois países na fronteira, os fluxos de contrabando têm diminuído sensivelmente em relação aos anos anteriores”, disse a ICCO.

Desde que iniciou o Ano Agrícola Internacional (AAI) do cacau em outubro de 2012 até o último dia útil de fevereiro de 2013, a taxa de crescimento do preço do cacau na Bolsa de New York é negativa e na ordem de 0,15%; já a taxa de câmbio US$/R$ tem variado pouco, mostrando, também, uma taxa de crescimento negativa de 0,03%.  No que se refere ao preço na Bolsa a informação mais relevante, converge entre a maioria dos analistas deste mercado, diz que não existem motivos plausíveis nesse ambiente para que os preços assumam essa tendência. Segundo a coluna de Análise de Mercado do site www.mercadodocacau.com.br, Thomas Hartmann assevera que: “Afora da confirmação de chuvas abundantes nas regiões produtoras da África, que a esta altura não mais constituem novidade, não há notícias fundamentais que pudessem ter motivado a queda, mas o sentimento baixista passou a dominar o mercado de cacau”.

Realmente, o comportamento atual do mercado está  muito estranho.  As mais importantes processadoras mundiais de cacau têm destacado seus líderes para vir ao Brasil, informado das suas preocupações quanto à necessidade de matéria prima para os próximos anos.  Mais de uma delas já mencionaram o mesmo volume de UM milhão de toneladas de amêndoas, as quais eles não sabem de onde virão, pois os atuais plantios não permitem vislumbrar que esse montante esteja presente no futuro mais imediato.  Apresentam-se, inclusive, como doadoras de recursos financeiros para incentivar novos plantios.

No Brasil a Abicab (Associação Brasileira da Indústria de Chocolate, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados) informa que o consumo aparente de chocolate sob todas as formas tem aumentado significativamente, de 404 mil toneladas em 2006, fechou o ano de 2011 com 691 mil toneladas e, nosso saldo da balança comercial para essa atividade tem gerado resultados positivos, na ordem de US$ 41 milhões.

Sim, e o que pode ser feito?  Bom, se a atitude fosse no sentido de radicalizar, uma alternativa poderia ser a de paralisar ou diminuir, consideravelmente, o incremento de novas áreas plantadas.  Isso poderia causar um “susto de oferta” e novos reposicionamentos haveriam de ser tomados.  Talvez o mais viável, no momento, seria o de armazenar o produto; vender somente o necessário para a manutenção da propriedade.  Mas, é claro que se essa decisão for isolada, ou seja, não tiver a amplitude que possa “mexer” com o mercado, acabará por ser inócua.

Existe ainda uma alternativa que atingiria de pronto a cacauicultura baiana: está relacionada ao regime de comercialização via drawback que possibilita a importação de cacau desonerada de tributos, desde que vinculadas a um compromisso de exportação.  Esse é um artifício legal que as empresas localizadas na Bahia estão utilizando, baseadas na alegação da insuficiência de oferta interna de cacau para processamento.  Esse mecanismo,sem dúvida, é sempre bem vindo, desde que a sua utilização não prejudique a produção nacional.  Acontece que, as informações sobre a produção brasileira para o ano em curso, apontam para a autossuficiência, fato que, automaticamente, resolveria o problema da importação de cacau. 

Como desdobramento desse contexto e que configura o quanto esse mercado é complicado/complexo, está na informação (sem confirmação oficial) sobre o preço de aquisição do cacau importado via drawback. É corrente entre os interessados do setor produtivo que o referido preço que está sendo pago é de R$ 82,00 por arroba, enquanto que o preço médio na região cacaueira da Bahia é de R$ 58,00 por arroba.  Fica fácil entender por que os cacauicultores baianos estão “com os nervos à flor da pele”.

O que não se pode perder de vista é que esse mercado quer: quantidade, qualidade e regularidade.  Para esses três quesitos os produtores, comprovadamente, reúnem competência. As dificuldades que, por ventura surgem em suas trajetórias de trabalho são, solucionadas. O que não se tem hoje (em termos gerais) é o requisito da organização, quer seja da produção, quer seja dos produtores, sendo essa última muito mais grave. Num exercício de raciocínio rápido, sugere-se o seguinte:

Experimentem contar quantos compradores existem no mercado.  São pouquíssimos!  A organização entre eles, sem dúvida, é facílima.  Agora façam o mesmo exercício em relação aos produtores.  A diversidade e dispersão são tão acentuadas que, num primeiro impulso a vontade em organizá-los desaparece no minuto seguinte.  Desse modo fica fácil controlar um mercado que, na origem, já é especulativo.  O que fazer? Desistir? É o pior dos caminhos!  Existe um leque de possibilidades que podem ser implementadas, mas até que se consiga um nível de conscientização dos produtores quanto à necessidade de organização, alguns procedimentos imediatos podem ser colocados em prática, como por exemplo: a) comercialização através de pequenos grupos de produtores; b) tentar modalidades de comercialização alternativas (leilão); c) evitar a comercialização antecipada (na flor); d) investir em tratos culturais que repercutem na maior produtividade das lavouras; e) apostar na condução familiar do negócio cacau (diminuir ou eliminar o meeiro, quando possível); f) buscar informações atualizadas quanto ao mercado; g) trabalhar a qualidade do produto, mesmo porque ninguém vai à feira para comprar produto ruim; h) buscar imprimir uma marca de qualidade no produto.

É fácil? Não! Mesmo porque, desenvolver níveis de consciência crítica nesse tipo de situação não é algo que se consiga de forma imediata. Requer tempo para que o processo se estabeleça através da mudança de atitude das pessoas. Mas é fundamental iniciar essa caminhada, mesmo porque adiar uma ação é prejuízo na certa.

Fernando Antônio Teixeira Mendes – FFA

Colaborações: Jay Wallace da Silva e Mota – FFA

                        Aliomar Arapiraca da Silva – FFA

  1. Caro Fernando e colaboradores,

    Parabéns pelo artigo e pelas boas recomendações para enfrentarmos as dificuldades que nos impõe o “complicado/complexo” mercado do cacau. Já o repassamos ao Presidente da ACAL para o devido exercício em terras capixabas.

    Um abraço,

    Elpídio

  2. silvano franco pinheiro disse:

    Muito boa reportagem, nos mostra um bom panorama da situação do cacau no mundo embora os dados não sejam recentes. Parabéns a todos que a escreveram!!!

  3. Carlos Spaggiari disse:

    Prezados Colegas da CEPLAC/Pará,

    Bom dia!!!

    Parabéns pelo artigo sobre o que esperar do mercado do cacau de 2013.
    Este é o assunto que nós do cacau, temos maior carência.

    Um grande abraço.

    Carlos Spaggiari.
    CEPLAC/Linhares-ES.

  4. Luiz Roberto Martins Pinto disse:

    Ola!!!
    É necessário que alguém ‘informe/declarem’ aos principais compradores que os preços que eles praticam no Brasil refletem pensamento colonialista e explorador, apoiado no mercado oligopolisado. Eles estão dando um tiro no pé. E cadê o CADE que não enxerga tal exploração?

  5. Cláudio Silva disse:

    Não entendo como é que o sistema de produção em regime de parceria agrícola pode ser prejudicial, quando na realidade é o sistema mais justo e viável em medias e grandes lavouras. O que é necessário é tecnificar, treinar estes produtores, coisa que a muito tempo não se faz.

  6. valdenor cardoso disse:

    Caro Fernando.
    Belíssimo trabalho.
    Gostaria de sugerir um outro trabalho levando em conta a realidade socioprodutiva dos Produtores Ribeirinhos – Amazonas e Pará -, cujos índices de rendimento e custos são diferentes do convencional.

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